Exportação de Dados do Fórum

Fórum

A Moral Pública é a moral dominante

Compartilhe este tópico:
Tópicos [ Anterior | Próximo ]
A Moral Pública é a moral dominante
Resposta
22/09/13 17:57

Saiba fazer vídeos clicando no link a seguir: CLIQUE AQUI PARA ACESSAR O LINK. Vídeo acima publicado na Internet em 22/09/2013.

Não autorizo uso, cópias e redistribuição com fins comerciais do vídeo e das músicas acima. Não autorizo obras derivadas com fins comerciais.



VÍDEO "POR ESCRITO"


A moral concreta, moral das coisas, moral pragmática. O que é isso? Bem, poderia ser uma especulação sobre o que seria uma nova moral. Ou poderia ser uma maneira de reanimar a moral, tão atacada e, nem por isso ausente, tão taxada de retrógrada, e nem por eliminável, tão taxada de ultrapassada, mas talvez cada vez mais presente, ainda que presença não notada ou estrategicamente ignorada. São especulações, inquietações, que levam-nos a intuir que a moral não é assunto tão antigo e descartável como a suposta quebra de tabus pode nos sugerir.

Parece ainda que a moral, a ética e a lei parecem assuntos indissociáveis, é o que nos sugere o senso comum, de modo que enquanto houver lei, e supomos que ela sempre existirá, deverá haver, assim supomos, uma moral associada a tal lei. Poder parece atrelado a uma força coatora externa. Não que seja isso, mas acredito que é como vemos o poder, geralmente. Mas haveria também relações de poder que não estão evidentemente atreladas a uma força externa, assim como haveria subjetividade e moral que não estariam sendo imediatamente produzidas por uma força coatora externa, ao menos não escancaradamente.

Vejo que a crítica ao poder, visto como algo externo e coator, tem o crédito de redimensionar o conceito de poder ou de o relativizar perante outras variáveis. Mas não podemos cair no perigo, assim vejo, de se ignorar a relação do poder, visto como exterior, na produção da subjetividade, não podemos desmerecer a atuação desse agente externo e coator. Ora, estamos imersos em relações de poder, não meramente estatais, mas familiares, trabalhistas, sociais, amorosas. Veja que o poder, tal como geralmente o entendemos, não é a totalidade dessas relações, mas sua presença nelas não é irrelevante, pelo contrário.


Seria, a primeira vista, de se supor como verdadeira a afirmativa que já fiz: a moral pública é a moral dominante, se não exclusiva. Em verdade, apesar do peso político interessante da afirmação, a honestidade nos leva a retificá-la, pois se a moral pública é dominante, provavelmente desde há séculos e séculos, dever ser por sua capacidade de poder sobre os homens, sobre os corpos e sobre as suas subjetividades e deve ser porque a lei é uma característica dela e a lei é algo fundamental para nós. Mas, embora a afirmativa de que a moral pública é exclusiva não perca em efetividade, pois nos questiona do alcance de tal moral, inclusive subjetivamente, não parece que a moral pública seja, em verdade, a moral exclusiva, isso não parece adequado de se axiomatizar.

Mas esse enunciado, a moral pública é a moral exclusiva, é um enunciado impactante, efetivo como já dito. É até o caso aqui de se criar um novo conceito em razão da descoberta desse efeito nos enunciados. Chamaremos de efetividade enunciativa, a capacidade de se produzir efeitos nas subjetividades, sejam individuais ou coletivas, por meio de enunciados, sejam falsos ou verdadeiros. É claro que tal conceito levanta questões éticas, como o questionamento sobre se é correto dizer uma mentira para se produzir um efeito enunciativo, positivo ou negativo, bom ou mal.

Mas deixemos isso de lado e voltemos ao tema da moral pública. Lembremos que anunciamos que a moral pública é a mora dominante, mas já nos retificamos e dissemos que ela não parece ser a única moral, ou seja, ainda que o simples fato de dizer que ela é exclusiva, mesmo não sendo, nos toca de maneira surpreendente, denunciando, no mínimo, a importância do tema e colocando-o sobre debate. Talvez aí esteja a utilidade de se lançar mão de enunciados impactantes: colocar temas sobre debates, especialmente aqueles ignorados, seja por astúcia, seja por serem pouco perceptíveis.


Analisemos a moral religiosa. Ela é bastante forte, e seria duvidoso, num primeiro momento, taxá-la de moral pública. Pois parece que moral pública está mais correlacionada a lei e a punição, como colocarei mais à frente. Assim, nesse viés mais estrito, talvez não caberia mesmo chamar a moral religiosa de pública. Entretanto, tal moral também implica em punições que se correlacionam com um outro tipo de lei, ainda que essa lei esteja em aparente subordinação a uma lei maior, que é a lei do Estado.

Em todo caso, ao menos por ora e para fins didáticos, convencionemos como moral pública aquela que, flagrantemente, se oponha à moral privada ou particular. Convencionemos ainda como moral pública, aquela que subtenda alguma punição como consequência ao ato imoral. Talvez outra convenções, mais tarde, possam ser associadas à moral pública. Por ora, atenhamos que é necessário que certa avaliação moral cumpra as duas convenções citadas para se chamar pública.


Um detalhe sobre a última convenção, necessária para se qualificar uma moral como pública, e que diz que toda condenação da moral pública está associada uma punição. Importante, cremos, é enfatizar que tal moral entenderia que, se uma atitude é imoral, merece uma punição. Essa obviedade concernente a moral pública, nós a perceberíamos também na moral em geral, nas outras morais. Mas aqui levantamos a hipótese de que essa característica de punibilidade, inerente a todas morais, não seria algo inerente a todas elas de fato, talvez nem mesmo à moral pública, ou, pelo menos, poderia não ser inerente a todas elas.

Ainda que a característica de punibilidade que associamos às morais não seja exclusividade ou inerente à moral pública, nela parece algo quase onipresente, o que entendemos como mais um indício de que a moral pública é a moral dominante, já que a punição, como decorrência de um ato imoral, é algo notório na moral pública, e a punição pela via da lei, ao menores delitos que sejam, é algo intrínseco das sociedades contemporâneas. Para se considerar um pensamento moralista, em nossa sociedade, supomos que seria necessário que ele merecesse uma punição. Em geral é assim que as pessoas pensariam a moral, hipotetizamos.


Evidentemente que, na vida prática, é possível que condenemos alguma atitude de outrem e não associemos, imediatamente, tal atitude a uma correspondente punição. Mas também creio que é verdade que não qualificamos, em geral, esse tipo de condenação sem punição como ato imoral. E se tal associação é passível de acontecer, não parece tão automática, não parece clarividente. Se se fala em moral, especulo e repito, exigir-se-ia uma reparação ou punição. Se se fala em moral, isso teria logo uma conotação social, pública, talvez pela sua articulação com a lei e a forte importância desta última na contemporaneidade.


Por outro lado atrela-se o termo moralismo às religiões também, mas isso é feito como crítica tanto às religiões como ao moralismo a elas relacionadas. Paradoxalmente, tal moralismo religioso, que muitos vêm como um atraso, não tem efetividade para implementar punições mais severas, ou nem se preocupa com isso, ou a punição restringe-se a uma atividade social inerente a tal atividade religiosa. Exemplo: impedir a comunhão a divorciados. Esse tipo de moralismo produz uma punição social também, mas bem restrita, efetiva apenas no setor social a que diz respeito. Apenas quando setores adeptos desse tipo de moralismo associam-se ao aparelho do Estado têm uma capacidade de implementarem uma moral estritamente pública, ou seja, uma moral resguardada pela lei maior, a lei do Estado.


Sem passar pelo crivo do grupo, sem passar pelo crivo da igreja, sem passar pelo crivo do Estado, sem passar pelo crivo da punição que eles permitem, como se falar em moral? Pode-se falar em moral para além do social, para além da moral pública? Essas perguntas pretendem instigar-nos sobre nossa própria capacidade de produção, discussão e articulação sobre o tema da moral, quem sabe estimulando a produção de futuros consensos, mas que não sejam consensos estabelecidos apenas por líderes dos grupos vários e, por vezes, reificados pelo poder da lei, reificados sob o título do que, estritamente, chamamos de moral pública. Mais do que transportar a responsabilidade moral do pública para cada pessoa como indivíduo, creio que essas questões visam abrir a celas que nos submetem às morais já construídas, assim como as celas que nos dizem que a única moral válida é a pública, sendo todas as demais ultrapassadas.


Mas voltemos à dissociação que sugeri entre moral e punição. Alguém poderia criticar essa dissociação que sugere uma não-obrigatoriedade de se atrelar uma sanção a um ato imoral. Esse alguém diria ser inequívoco que uma atitude imoral merece uma punição, mesmo que seja apenas aos olhos de uma pessoa, e não necessariamente de um grupo, tal pessoa pensaria numa sanção ou a desejaria. Mas eu rebateria apenas questionando: por que não se poderia condenar uma atitude de alguém sem ter que se pensar em uma punição ou reparação para essa atitude que se julga imoral?. Logo, haverão aqueles a dizerem: mas qual o sentido disso, qual o sentido em se inaugurar uma nova forma de moralismo, se é justamente o moralismo que viemos combatendo ao longo dos tempos?


Quanto a isso só me resta contra-questionar: e se fosse impossível acabar com o moralismo? E se ele, em vez de reduzido, só estivesse se intensificando cada vez mais, como propõem alguns, se intensificando na forma de panótipo ou sinótipo, na forma da ordem e do progresso, na forma de uma moral clarividente, dominante e aceita, mas que não se enxerga como moralismo? Suponho que o próprio termo moralismo parece um termo depreciável e associado aquilo que temos de ultrapassado e instaurador de tabus, de modo que ainda que exista um moralismo, ele não é visto assim, mas como moral, ética. Mas moral e tabu não são quase indissociáveis? A moral pública ou seja lá qual seja a moral dominante, restante ou aceitável, também ela não protege tabus? Teria o respeito ao público nos cegado quanto ao privado ou quanto a indestrutibilidade de qualquer moralismo? É realmente possível e/ou desejável se viver sem nenhuma moral? É a moral pública a única moral verdadeira?


Com essas questões pretendo apontar minha inquietação sobre esse tema que considero importante, o tema da moral. Importante porque cerca-nos e não podemos ignorar, porque nos exige uma posição, porque está entrelaçado com poder – poder que por nós é produzido e poder que a nós se dirige. Por que se para além do poder há vida, por que se para além da moral há vida, também deve haver vida na moral e no poder, também não devamos querer abrir mão da moral e do poder, o que, em todo caso, não seria possível.


Parece clarividente a mim que a maioria das pessoas defenderiam alguma moral. Assim como clarividente me parece que a maioria das pessoas criticam algum tipo de moral. Essa contradição é no mínimo instigadora.